Domingo, Abril 29, 2012

Sobre a Exposição de Fernanda Gomes no MAM - RJ


O que caracteriza uma casa? O que faz de um lar, um lar? Serão os objetos colocados entre quatro paredes? Como esses objetos se harmonizam no ambiente e nos fazem ter a certeza de que há alguém humano vivendo naquele espaço? E que objetos são esses?
A exposição de Fernanda Gomes que esteve exposta no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro ocupa um extenso espaço com diversos objetos esquecidos, com diversas marcas de algo ou alguém que pode ter passado por ali. Poças de água no chão, um copo quebrado, cascas de nozes, folhas, pedras, facas enferrujadas que se encostam discretamente penduradas por um fio, um banco torto... Tudo dá a impressão de algo que parou no tempo, uma visitação nostálgica ao que já foi o lugar de alguém, e em algum momento, o nosso. 
A disposição dos objetos aparentemente não possui uma lógica, o que nos faz ter vontade de mudá-los de lugar, já que temos a liberdade de percorrer por toda a sala e passar por cima dos objetos no chão, nos forçando a ficar atentos para não chutar nada, embora muitas vezes dê vontade de alterar, compor um novo espaço.
A opção de expor em um lugar com janelas de vidro, que recebe diretamente a influência externa da paisagem e do tempo, também altera a percepção do observador no espaço. No meu caso, ir em um dia chuvoso e nublado me remeteu algumas sensações específicas dialogando com o tempo, o que talvez fosse diferente em um dia ensolarado. Um binóculo, por exemplo, que apontava para a vista, em outra sala em que houvesse apenas uma parede branca, teria outro efeito.
O dicionário amarelado e carcomido aberto destacava algumas palavras, entre elas “Desemparelhar”, ou seja, separar, desunir o que estava emparelhado, desigualar. E a impressão desses objetos aparentemente usados, jogados e esquecidos é a de quando nos mudamos; quando os móveis e objetos que usamos durante tanto tempo ainda não tem espaço em uma casa nova; quando o passado, presente e futuro se esbarram por um momento, proveniente de um pequeno caos.


Sexta-feira, Novembro 18, 2011

Direto ao Ponto - Matéria sobre Ponto Fraco

Por: Renata Magalhães




Os limites que dividem realidade e ficção são cada vez mais estreitos. Quase toda história atual passeia entre a biografia e o imaginário. Esta temática, já bastante explorada em livros e telas de cinema, aparece renovada no espetáculo teatral Ponto Fraco, que estreia dia 28 de novembro na UNIRIO. Com direção de Leandro Romano e texto de Luiz Ribeiro, a peça é estruturada a partir de depoimentos de três meninas aparentemente comuns, que contam casos que poderiam facilmente ter acontecido com qualquer pessoa da plateia.
As atrizes Elsa Romero, Julia Bernat e Larissa Siqueira dividem o palco, e, durante o espetáculo, contracenam ou fazem monólogos. Cada história é real e ficcional ao mesmo tempo. “A ficção depende da realidade para ser verossímil e ter credibilidade, enquanto que a realidade depende da ficção para organizar o caos que é o mundo”, explica Luiz. É essa dúvida que prende a atenção da plateia, que sai do teatro questionando se aquilo foi vivido pelas personagens ou se tudo não passou de boa interpretação das atrizes.
O espetáculo foi concebido por Leandro Romano depois de fazer um estudo sobre ficção e o real. Com a ideia elaborada, ele formou uma equipe, que realizou pesquisas sobre o tema e, posteriormente, atividades práticas. A partir dos exercícios, o texto de Ponto Fraco foi montado com base em depoimentos das atrizes e criações ficcionais de Luiz Ribeiro. O grupo não conta com patrocínios e produziu o espetáculo com capital próprio, além de desenvolver alternativas para arrecadação, como rifas e festas.
Cada cena traz uma analogia, mesmo que bastante sutil. O público se vê envolvido em contos de fadas e até mesmo em dramas familiares, sendo que uma história completa a outra. “As cenas de Ponto Fraco, apesar de parecerem livres, estão construindo um todo, mesmo que sutil e frágil, como é a vida”, conta Luiz. Outra questão marcante é a trilha sonora. Desenvolvida por Jayme Monsanto, ela faz com que o espectador se sinta parte do espetáculo e participante da ação dos personagens.
A peça fica em cartaz até o dia 30 de novembro na UNIRIO, na sala Roberto de Cleto (6º andar), sempre às 20 horas. O espetáculo é gratuito.

Sábado, Outubro 15, 2011

R & J de Shakespeare - Juventude Interrompida



Não me espanta e nem me surpreende ver Shakespeare em cena ainda nos dias de hoje. Também não me espanta que a história política inglesa de amor mais conhecida do mundo entre no off-Broadway americano com uma adaptação magestral de Joe Calarco, onde quatro alunos de escola inglesa católica se utilizam da trama para a fuga desse mundo opressor. Não me espanta também que esses quatro jovens consigam brincar com o objeto e se utilizem das palavras do inglês como se fossem suas, assim como é também esperado o sucesso na adaptação brasileira de João Fonseca. O que me espanta é apenas uma coisa: não se ver um teatro lotado.
“Romeu e Julieta” de Calarco é interpretado apenas com rapazes que montam a obra aos fragmentos e brincadeiras, revezando as personagens e se utilizando de um cenário simples que sugere muitos espaços e de uma iluminação que multiplica esse espaço aos milhões, translucidando simplicidade em dinamismo. O mais interessante é que essa montagem, me parece, muito mais próxima de um espetáculo inglês renascentista no The Globe que qualquer adaptação prepotente cheia de personagens, roupas, atores e trejeitos, como queria o realismo. Assim, com a realidade na ponta dos dedos da juventude, a rebeldia do amor de Romeu e Julieta atualiza o abalo político que o recente amor cortês imputava na dinâmica política do séc XVI e XVII. Os atores dão conta de serem tudo que são e se às vezes a linguagem parece um tanto rebuscada é mais culpa da própria linguagem que deles.
Se fosse destacar uma falha, e não me ponho a destacar mais, seria o abandono na segunda metade do espetáculo da relação de jogo efetuada entre realidade teatral e a obra shakespeariana, pois aquele pacto inicial desenvolvido em dois níveis fazia mais sentido, pois trazia também em questão um outro elemento da obra do inglês: o teatro no teatro. Como abandonam a ideia, resta-nos penetrar apenas na camada da tragédia que com excelência nos chega, fazendo-nos esquecer que ao invés de uma Julieta vemos um jovem que à pouco fazia papel de primo de Romeu. É a magia do teatro se atualizando como magia e como teatro. Eis o teatro fazendo aquilo que o cinema jamais ousará. O jogo, a teatralidade, são elementos tão raros de se atingir com primor que, quando visto, traz uma espécie de êxtase ao público que ao final não contém os assobios e os gritos de bravo.

Por último, assumo uma certa humildade na forma de crítica, pois o espetáculo tem tantos pontos a se destacar que fica pequeno se utilizar de um e, como tal, assumo a função apenas de listar, como fiz agora, tudo aquilo que me chama atenção ao olhar.
Impossível deixar de deixar de dizer, no entanto, daquele pacto de amor entre Romeu e Julieta que arrastados pelo nobre sentimento são empurrados violentamente à morte pelas mãos do destino. Desgraçado destino que separa os amantes e une aqueles cujo coração guardam jogos, rancores e vilanias. Pretendo terminar este escrito lembrando da noite, a única noite que Romeu e Julieta passam juntos, aquela que parece durar a eternidade e é acordada pelo som do rouxinol e da cotovia, num misto de dia e noite que expande o tempo para a eternidade e que nós, quatrocentos anos depois, fazemos questão de parar mais uma vez.

Ficha Técnica:

ELENCO:
FELIPE LIMA- Estudante/ Mercucio/ Sra.Capuleto
PABLO SANÁBIO- Estudante/ Ama/ Teobaldo/ Frei
RODRIGO PANDOLFO- Estudante/ Julieta/Benvoglio
JOÃO GABRIEL VASCONCELLOS- Estudante/ Romeu
DIREÇÃO: JOÃO FONSECA
CENÁRIO: NELLO MARRESE
FIGURINO: RUY CORTEZ
ILUMINAÇÃO: LUIZ PAULO NENEN

Meu Caro Amigo



Um bom espetáculo de teatro não tem efeito somente em si, mas em vários níveis discute primeiro o gênero que está inserido e, por fim, todo o teatro. O teatro musicado, como é sabido, tem se mostrado um grande sucesso no Brasil, dividindo, em linhas gerais, suas produções em duas: uma de montagem de adaptações de sucessos americanos e outra na construção de obras baseadas em homenagens ou biografias de grandes nomes da nossa cultura, geralmente artistas da música popular brasileira.
Por ter esse caráter de dar grandes tons para sua dramaturgia, é preciso muito cuidado para a construção de um musical, pois o gênero está a um passo de ultrapassar uma linha tênue e cair em algo dispendioso, brega, dramalhão ou teatro fácil. Para que isso não aconteça é preciso que o dramaturgo, o diretor e os atores tenham uma habilidade e sensibilidade especiais no trato da composição da obra. O dramaturgo petropolitano Felipe Barenco, a diretora Joana Lebreiro e a atriz Kelzy Ecard tiveram.
“Meu caro amigo” é mais que uma homenagem de uma mulher e sua relação com a obra de Chico Buarque, é um traço de uma geração de mulheres que cresceu ouvindo as canções de amor e protesto do rapaz dos olhos cor de ardósia. A personagem Norma, como quase toda moça de classe média, vive grande diferença entre seu gosto e a visão autoritária do pai, sempre mediada pela figura de Chico Buarque que passa de doce compositor de “A Banda” ao engajado de “Apesar de Você”.

A obra expõe em cena o jogo teatral em memória coletiva/afetiva e criação dramatúrgica, realçada pela direção de Lebreiro que faz da excelente Kelzy uma verdadeira camaleoa ao desfilar por todas as idades com um olhar que vai dos 10 anos até os dias de hoje. As canções não são decorativas, mas trazem à tona as lembranças em comum de uma geração: as impossíveis antenas de televisão, os festivais da música, os problemas com a ditadura.
“Meu Caro Amigo”, e essa imagem ficou recorrente após o espetáculo, cria uma ilha de afeto ou um relicário emotivo, espécie de “requilha” onde nosso passado coletivo passa.
Como disse mais acima, algumas obras discutem o teatro. Creio que “Meu Caro Amigo” é uma delas. Por fazer de um teatro musical ao invés de algo grandioso para mostrar a capacidade de uma cena cheia de vigor e potência, Felipe Barenco fez um teatro que nos aproxima, onde o espectador se sente um pouco produtor, um pouco artista, um pouco Norma e um pouco Buarque e, por isso, dá um novo gás aos musicais e abre um caminho que deve ser explorado.

Terça-feira, Outubro 04, 2011

Árvore da Vida (2011)



Assisti “Árvore da Vida” e, antes de começar minha crítica, resolvi ler algumas outras para poder perceber por onde começaria a falar mal do filme. Enquanto assistia pensava que se tratava de uma versão espírita de “2001 – uma Odisséia no Espaço” do Kubrick e, não sem surpresa, nas críticas percebi que o diretor é conhecido pelos equivocados como “o novo Kubrick”. Esse argumento me parece furado primeiro porque esse tipo de comparação é simplesmente uma perda para ambos e segundo porque há tantos Kubricks que talvez seja difícil escolher um para que se pareça com Terrence Malick, diretor de “Árvore da Vida”.
O filme, de estrutura não-linear, tem como sinopse a visão de um menino, interpretado como adulto pelo excelente Sean Penn, que recebe uma dura educação de seu pai (Brad Pitt) e vê em sua mãe (Jessica Chastain) uma mulher de personalidade fraca. Isto, acrescido à morte de um irmão, gera uma espécie de trauma que acompanha a narrativa desse rapaz desde o começo do mundo, passando pelos dinossauros, até os dias de hoje.
O filme, quase uma completa sucessão de imagens do mundo, quase sempre usando de forçadas imagens de pôr-do-sol, mas também utilizando mares, vulcões, corredeiras, árvores, entre outros, é acompanhado por belas canções clássicas de renomados músicos da nossa história. O ritmo, se é que há, é não convencional, o que poderia ser algo a favor, mas que se volta contra si na medida em que se utiliza de uma ideia existencialista rasa, que me lembra os livros de auto-ajuda, quase sempre pedindo perdão a Deus por ser quem se é mesmo que ele faça de tudo, ou então se perguntando 'qual o sentido de tudo?', 'por que estamos aqui?'.
Essas reflexões vazias, que não suportam respostas, querem sugerir que o mundo possui muitos mais mistérios do que sabemos assim como em "2001" de Kubrick, sendo que este se utiliza do mistério do universo, daquilo que há e não podemos ver mesmo vislumbrando um fragmento, enquanto que Malick faz perguntas absolutamente sem respostas e, por isso, sem sentido.
No fim, uma cena na praia com todos reunidos e felizes, no melhor estilo “Nosso Lar” força um encontro entre natureza e homem, passado e presente. A sequência é bela, mas não deixa de cansar pela absurda resignação de todos que compartilham de uma felicidade impossível, a não ser no próprio filme criado na mente de Terrence Malick

Sábado, Setembro 24, 2011

Tudo sobre minha mãe (1999)

Nunca vou me esquecer das palavras do sábio Rogério Skylab dizendo que as transsexuais são, atualmente, o que há de mais contemporâneo na humanidade. O ser humano-ciborgue, mistura de máquina e organismo, chega a um limite onde fica clara a simbiose entre um e outro, na medida em que esses seres constróem seu próprio corpo, dando-o o formato que quiserem. O interessante é imaginar que, no entanto, tampouco querem ser femininos ou masculinos, mas sim um misto, uma potência criadora que não se manifesta em tecnologias, mas sim, nos corpos.
É o que me parece traduzir em “Tudo sobre minha mãe” de Almodóvar, na cena em que Agrado, um travesti, conta a história da sua vida a partir do dinheiro gasto em cada cirurgia que compõe seu corpo. Cada uma contendo um valor, uma história e assim, uma marca.
A obra é sobre uma mulher que, ao engravidar de seu ex-marido, um homem que se tornara um travesti, foge para cria-lo longe do pai. 17 anos depois o filho é assassinado e ela retorna à cidade para encontrar o pai e contar o sucedido. Lá ela faz amizade com Rosa que está na mesma situação, só que ainda grávida. Esse sujeito, enigmático está representando essa figura ambígua, sem sexo, amorfa ou polimorfa da transsexualidade que impede que as ações até então costumeiras como maternidade, educação, ou seja, o pensamento tradicional voltado para a constituição de família regular, estabelecidade, religiosa, se estabeleça dentro do padrão.
Essa nova estrutura que ultrapassa muitas barreiras só para se formar, parece não levar em conta a ordem tradicional e mais que coloca-la em cheque, solapa sua energia vital e sua capacidade de ação, gerando uma espécie de perplexidade, como no caso de mãe de Rosa, uma tradicional consumista. Assim, o mundo parece muito maior que o que podemos ver e as cores de Almodóvar parecem equlibrar um mundo mágico com um mundo trágico, mostrando-nos como os dois são possíveis como um ponto de boa vontade e amor.

Quinta-feira, Setembro 08, 2011

O Tigre e a Neve (2005)

Pensei em várias formas de começar essa crítica, a que me pareceu menos apropriada é a que uso agora: Se é um clichê dizer que todas as pessoas são únicas, diria que Roberto Benigni é mais única que algumas outras. Costumo observar que, entre os atores, há basicamente dois tipos de interpretação. Uma onde o ator desaparece em prol das personagens, como Sean Penn, Maryl Streep e aqueles que, desdobrando-se em outros, de alguma forma, interpretam a si mesmos, entre eles Woody Allen, Charlie Chaplin. Benigni está nesse segundo grupo.

O diretor já havia nos provado em 1997 que, mesmo em plena Segunda Guerra Mundial, “A Vida é Bela”, mas como ele mesmo diz, parece que ainda não aprendemos. Por isso, “O Tigre e a Neve” vem dizer novamente aquilo que não foi ouvido. A obra é sobre Attilo, poeta e professor, tão apaixonado por Vittoria que, após saber que ela sofreu um acidente em Bagdá, durante a guerra do Iraque, vai até lá e muda a ordem daquela cidade a fim buscar a cura para seu amor.

A mística do amor é simples, mas o encanto perdura no humor atrapalhado de Benigni, e nas suas peripécias à lá Commedia dell´Arte que transformam sua personagem em um singelo Pierrot, o apaixonado, que busca seu amor sem medir as consequências do trajeto. No entanto, a mediação humorada que ultrapassa o plano trágico impede que a obra caia em clichês americanos ou saídas melodramáticas. Tudo é sugerido e o grande amor platônico se transforma em algo menor, singelo, comesinho, como se Benigni, em meio a guerra, amasse como uma criança.

Justamente por isso, me parece que “A Vida é Bela” se atualiza em “O Tigre e a Neve” onde Benigni dedica seu enorme amor pelos homens, pela natureza e pelo mundo mostrando que a poesia não está onde se olha, mas sim em uma instância interna do sujeito e que a guerra é absurda justamente porque é um mundo em que nosso olhar não se deixa tocar pelo outro, mas se sente ameaçado, acuado e, por isso, resolve revidar.

Em um momento, Attilo diz que, com sua Colombina morta, tudo pode acabar, pode se pegar toda a encenação que é o mundo, enrolar como um tapete e jogar para um canto já que nada mais faz sentido: o sol, uma parede, o vento, um carro, uma abelha…

É assim que se deve olhar Benigni: um poeta que vê no pequeno o todo do mundo onde está representado tudo aquilo que vive dentro de si que, de tão belo, não pode ser calado.

Segunda-feira, Setembro 05, 2011

O Baile (1983)

Não é científico e portanto não podemos provar, mas há quem diga que a dança é o que há de mais sublime nos gestos humanos. Não é à toa que muitas religiões vêem na dança algo diabólico e pecaminoso. A verdade é que a dança é ainda mais que isso, ela está entre o sublime e o infernal: é a porta, o primeiro acesso ao desconhecido. Perder-se nos passos de uma dança pode ser traduzido como entregar seu corpo ao desconhecido de um outro e, justamente por isso, fazer um encontro tão belo quanto o amor e tão carnal quanto o sexo. A dança é, enfim, desregrada, libertadora e subversiva.

Ettore Scola, o mais teatral dos cineastas, percebe isso e nos mostra como a dança reflete a sociedade européia no século XX através da belíssima produção “O Baile” de 1983. O filme, como o título sugere, é todo passado em um único espaço, um salão de baile, onde diversos personagens frequentam para dançar e traduzem assim, uma maneira de ver o mundo e o outro através do comportamento, dos passos, do contato e da relação afetivo/amorosa. Tudo isso sem que se diga uma palavra. A subversão da dança é essa: ela rompe barreiras sem discurso, sem poética que se voltam contra si. Ela é política às avessas e, portanto, anárquica e rebelde.

Em “O Baile”, adaptado do teatro de Penchenat, se vê desde as valsas do início do século até o rock dos anos 70. Passa também pelos momentos de guerra onde a música cessa e se ouve apenas os sons das bombas: durante a guerra é preciso silenciar para que se ouça o absurdo do lado de fora. Em um breve momento há uma dança: duas mulheres à espera de seus maridos, porém ao final uma grande roda celebra novamente a vida que promete renascer.

O filme que, em alguns momentos pode ser cansativo uma vez que beira a dispersão pela falta do foco narrativo, contraria essa colocação na medida em que é justamente na ausência do foco que permite que a personagem principal seja o baile propriamente dito, aquele espaço minúsculo e fechado, onde a noite habita os sonhos de gerações e gerações que descobrem na dança uma forma de se colocar no mundo.

É um filme singelo que, com quase 30 anos, já pode ser considerado um clássico, porque ultrapassa a barreira do comum para construir a história de uma civilização moderna e fragmentada.